sexta-feira, 22 de julho de 2011

AMOR PERFEITO

Estava pensando no quanto todos nós estamos enganados sobre o amor que queremos. O primeiro adjetivo que ocorre para definir o amor que procuramos é 'perfeito'. Perfeito é o que não tem defeitos, físicos ou morais. Isso quer dizer que se uma espinha aparecer, a perfeição já foi comprometida; a pessoa perfeita não tem o direito de ter calos, cabelos brancos, preguiça, soluços, teimosia, vício por café, uns quilinhos a mais ou a menos, flacidez. 

 A pessoa perfeita nunca é perfeita. Estive pensando e acho que a pessoa perfeita é aquela que é a 'nossa'. Nossa porque há cumplicidade, confiança, diálogo, cuidado, dedicação, reciprocidade e aquele tchan que não se encontra todos os dias.

Imagine que você perdeu um objeto de valor sentimental, não necessariamente de valor material. Você procura, busca, se empenha para recuperar o objeto e mesmo que você possa comprar um melhor, mesmo que você ganhe outro idêntico, aquele não é substituído, porque ele era único e era o seu.

Pense ainda no que você sente quando volta para sua casa, depois de uma viagem magnífica na qual você esteve em hotéis maravilhosos. A sensação de estar na sua casa, é única. Pode não ser tão confortável, tão bonita, tão ricamente mobiliada. Mas é sua. Um vestido Prada que não seja seu, nem seu número, não adianta ter no armário. Mais vale a velha calça jeans, já surradinha, que cai como uma luva.

Com o amor também é assim, com a pessoa certa é assim também. Ela não é a pessoa certa porque é a melhor. Ela é a certa porque é sua. E mesmo que você possa ter um amor novinho em folha, embalado em papel-bolha, não será tão bom, porque não é o seu.


A CAMA ELÁSTICA


Todos nós costumamos ser incomodados pelas mesmas coisas. E a maioria dos nossos problemas existem porque não conseguimos viver apenas o momento presente.

Vivemos o presente, mas passado está lá fora, ameaçador. Ele ronda, ele amedronta, ele faz barulho. Mas, na verdade, ele não existe e não é mais que eco e sombras, desenhos, imagens que se desfazem no ar. O presente é aqui dentro e agora, nesse recorte de tempo chamado hoje.

No presente estamos seguros e aquecidos, protegido contra tudo que já foi e hoje não mais é. Urge jogar ao fogo o resto de lembranças que hoje só ocupam espaço e poluem a atmosfera da mente. O agora é tudo que há para viver.

Imagine-se pulando numa cama elástica. Esse movimento é tudo, pois te toma inteiro, ocupa sua mente totalmente. Agora você não é ninguém, nem nada te incomoda. Você é só esse movimento, a emoção de se projetar no ar pelo impulso do elástico. Você está totalmente no presente, no agora. Você não se lembra de nada, nada te incomoda, você só quer apreciar a sensação. E assim deve ser, sempre que se sentir  voltando ao passado ou visitando o futuro: pule na cama elástica. Volte para o presente e seja o presente, seja o movimento, seja o momento.

DA FRAGILIDADE


Frágil é o que se quebra ou se desfaz facilmente; quebradiço, débil, fraco, pouco resistente. Em sentido figurado, sujeito a sucumbir às tentações, leviano, efêmero ou transitório.


Conversávamos essa semana e falamos da fragilidade da vida, o quanto isso assusta e traz desconforto. A vida é frágil, nós somos frágeis, as relações são frágeis, os estados, até as certezas. É paradoxo, uma certeza ser frágil, mas na condição humana, as certezas não são tão certas; são frágeis, sim.


Você se assusta diante dessa fragilidade. Eu acho que a beleza está na fragilidade, porque ela nos leva a valorizar mais o que temos, o que vivemos, o que saboreamos. Porque isso passa, fica a lembrança, ou em casos menos felizes, ficam a culpa e o remorso. Mas também penso que se frágil é efêmero, transitório, frágil está contido num todo que não acaba, que é eterno. Frágil está na eternidade, é uma das faces, um dos lados. Não há porque temer.


É belo ter o amor de uma pessoa sabendo que tudo é frágil, inclusive os sentimentos. E vem a tempestade... o amor balança, mas não cai. Vem o tufão, o amor cai, roda com o vento, consegue se segurar e permanece. E vêm mais coisas, e o amor apesar de tudo, continua, resiste, cresce e fica mais forte. E talvez não seja assim tão frágil.

"A vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância diante da eternidade do amor de quem se ama."  (Nando Reis) 

O JARDIM

Uma mulher passava por uma profunda tristeza, cultivando mágoas e dores, diante da vida cruel que a reduzia a pouco. Sua casa era escura, sem vida, sem perfume. Suas roupas expressavam a dor que lhe ia pela alma. Aos poucos, ela perdia a capacidade de sorrir diante das brincadeiras das crianças ou da espontaneidade do seu cachorrinho Foguete.
Um dia, na visita de um amigo querido, ouviu o conselho que mudaria sua vida:
- Margarida, a partir de hoje, cada vez que se sentir triste ou que uma mágoa se revolver na sua mente, você plantará uma flor.
E assim, sem ao menos pensar a respeito, ela simplesmente o fez. No primeiro dia, plantou quinze flores. Não foi fácil, pois, entre as plantas que ainda restavam na sua casa e no seu quintal, não havia muito o que plantar: faltavam mudas e sementes para tanto pensamento negativo. Ainda assim, encontrou um vasinho de violetas jogado a um canto, do qual recolheu três folhas e replantou em outros três vasinhos já desocupados. Colheu sementes de beijo-pintado e fez mais doze covinhas num canteirinho abandonado – a cada covinha plantada, um pensamento ruim havia passado anteriormente por sua cabeça.
No segundo dia, as dificuldades continuaram. O que plantar? Onde plantar? Começou a reaproveitar embalagens que iriam para o lixo: potinhos de iogurte, latas de creme de leite, e outras que poderiam servir. Começou a fazer testes, retirando  possíveis mudas dos pés de plantas que já existiam e estavam morrendo. Decidiu que recuperar uma flor que estivesse morrendo, também serviria para ‘pagar’ por um sentimento negativo.
Conforme os dias iam passando, a missão se transformou em diversão, sem que ela percebesse. Assim, começou a passear pelo bairro, pedindo mudas de flores às vizinhas, às vezes, até se arriscava a colher furtivamente nos jardins públicos sementes ou galhos que seriam replantados, posteriormente, no próprio quintal.
O quintal, antes sem vida, começou a ser organizado como um jardim. À noite, ao se deitar, ela idealizava a distribuição das flores, por cores e formas, e no dia seguinte, tentava executar a risca os planos traçados mentalmente. Começou a frequentar o viveiro do bairro. Lá descobria novas espécies e se apaixonou definitivamente pelas flores, que agora, incluíam folhagens, gramíneas, arvorezinhas e todo tipo de plantinha ornamental que se possa imaginar.
Agora, as flores estavam por toda parte. Dentro de casa, sobre as estantes, nos cantos, penduradas nos ganchos. Passou a ler e aprender os nomes científicos e populares: Impatiens walleriana, Moréia-bicolor, Azaleia, Ixora coccínea.
Assim, quando já não havia espaço no próprio quintal, já todo tomado pelo jardim multicor, ela começou a plantar um jardim no terreno baldio ao lado da própria casa. Ao fim de alguns meses, ambos os jardins reluziam em cores, nuances e formas.
Como todos observavam, e os jardins da Margarida eram comentados por toda a cidade, uma emissora de TV se interessou em mostrar a história. Assim, perguntaram a ela como surgiu a ideia do jardim e o que ela usava como adubo para que as flores ficassem tão belas e florissem o ano todo, ignorando as estações. Ela, pela primeira vez em meses, se deu conta de que havia esquecido completamente o motivo que a fizera começar o plantio das flores. Simplesmente percebeu que as dores se foram, as mágoas também, deixando apenas beleza. Bem posicionada para a câmera registrar ao fundo o jardim tão belo, trajando um vestido colorido, cujas flores pareciam saltar do próprio jardim, não querendo decepcionar a audiência, respondeu sutilmente ocultando a verdade:
- Esse jardim nasceu de uma linda história e o adubo usado foi o amor.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

PRATICANDO O DESAPEGO



Sempre vi a aceitação como uma ferramenta de grande utilidade para a nossa vida. Aceitar a vida e a morte, aceitar o momento, aceitar o não, aceitar o trabalho, aceitar...

Quando não sabemos aceitar, nos debatemos, nos revoltamos, nos machucamos, nos agarramos a coisas, situações ou pessoas, sem permitir o curso natural da vida.

Vemos tantas pessoas deprimidas porque foram traídas, outras revoltadas pela dificuldade que bate à porta, outras renegando Deus ou qualquer outra crença na divindade, porque não aceitam o fim da vida de um ente querido. Os motivos são inúmeros, possibilidades diversas, mas uma coisa em comum: a não aceitação.

Minha didática mente de professora, cultivada pela necessidade, faz com que eu veja o apego como um dos impecilhos para a aceitação. Por apego nos negamos a aceitar situações que não nos agradam, ainda que tenhamos a consciência de que posteriormente o resultado será positivo.

E o apego é aprendido, pois desde a nossa infância somos estimulados a isso. Todo o tempo nos ensinam a sermos apegados aos nossos familiares, aos nossos objetos. Quando cometemos um erro, somos punidos quando retiram de nós o objeto do nosso apego: o brinquedo, a companhia dos amigos, a TV. E assim crescemos, nos apegando e imaginando que a punição é a retirada do objeto do nosso desejo.

Pessoas se apegam ao casamento (e quaisquer tipos de relacionamento), não importando se há felicidade, se há respeito. Simplesmente não se aceita  o fim do relacionamento por apego.

Não aceitamos a morte de um ente, mesmo acreditando que a vida continua, ou que Deus o receberá em seu reino de amor.

Mas como exercitar o desapego? Cada pessoa deve criar seus próprios antídodos.
Entender que cultivamos memórias que nos aprisionam, é um bom começo. Entender que o apego é quase sempre um cárcere que criamos para nós e que ele se opõe à aceitação, à resignação e ao respeito pela vida também é de utilidade. Compreender que vida é impermanência - as coisas mudam todo o tempo e nisso a beleza está. A impermanência, além de um fato, é uma ferramenta para o nosso crescimento. Com ela, aprendemos a nos desapegar, a valorizar o que há de bom enquanto há oportunidade, aprendemos a sofrer menos com as dificuldades porque sabemos que serão passageiras.

Exercitar a aceitação, buscando tirar o melhor proveito de tudo o que vivemos é, sem dúvida, um dos melhores caminhos para o crescimento e a evolução, lembrando que essa aceitação nada tem a ver com o comodismo, com a falta de iniciativa, com a exagerada passividade. Afinal, tudo em excesso é prejudicial.


Considerando-se a impermanência de tudo, em um mundo em constantes alterações, o apego representa a ilusão para deter a marcha dos acontecimentos e reter tudo mais, impossibilitando o surgimento da realidade.
(Joanna de Ângelis)




terça-feira, 19 de julho de 2011

QUEM PERDE O TETO, GANHA AS ESTRELAS

 
Pollyana, a famosa personagem criada por Eleanor H. Porter, via tudo pelos olhos do bem, do melhor. Se lhe caísse um tijolo no dedo, ao invés de praguejar, não demoraria em afirmar: Que bom! Isso acontece porque tenho dedos!

Assim, por exemplo, diante da falta da melhor vestimenta, podemos reclamar. Mas, melhor seria agradecer e vestir a roupa humilde com a mesma alegria com que trajaríamos a veste mais cara. Tudo se torna uma questão de ponto de vista e, acrescento, gratidão pela vida.

Tenho pensado sobre o que é gratidão. Viver em gratidão é algo que vai muito além de bradar em altas vozes ou em pronunciar numa prece: Eu agradeço por tudo de bom em minha vida. Viver em gratidão é simplesmente viver em alegria por tudo de bom que há em nossa vida.

Ser grato não significa apenas agradecer pelo teto, pelo trabalho, pela família. Ter uma atitude de gratidão é viver como se tivéssemos sempre o melhor da vida: o melhor teto, o melhor trabalho, a melhor família. E de fato temos ou podemos ter. Tudo é uma questão de escolha, valorização e reconhecimento, além de atração. Mas, assim como podemos escolher não viver em gratidão, podemos escolher vivê-la em plenitude.

Degustar o alimento da nossa mesa com alegria diariamente, sem reclamar pelo excesso de sal ou pela falta do que mais agrada ao nosso paladar é atitude de gratidão. Assim também, trabalhar com alegria, honrando nossa função, espalhando bondade, amizade, valorizando a fonte do nosso sustento, mesmo com as dificuldades que podem vir, também é ser realmente grato.

Aproveitar os dons que recebemos, aprendendo a multiplicá-los e colocá-los a serviço do bem comum, além do nosso próprio bem, também é viver com uma atitude de gratidão pela vida. Acredito que uma das coisas mais belas da vida é aproveitarmos os dons que recebemos. Como é belo ver aquele que plantou colher com alegria os belos frutos do seu plantio! Como é belo ver o médico dedicado no atendimento aos seus pacientes, transformando a vida daqueles que o procuram! Como é belo ver o professor que com carinho ensina os alunos! Todos esses e todos os outros que aplicam seus dons estão vivendo em gratidão, são gratos à vida e assim encontram sua forma de retribuir.

Quando somos gratos pela vida, somos plenos, não nos apegamos a pequenos sofrimentos, não guardamos para nós o que há de bom, não negligenciamos as nossas capacidades, desconhecemos o que é viver sem amor, sem alegria, sem solidariedade e sem respeito. Quem vive em gratidão, nunca lamenta, nunca reclama, nunca perde; quem vive em gratidão, consegue ver além, consegue ver bênçãos em todos os momentos, vive como Pollyana.

Porque quem vive em gratidão é alguém que “perde o teto, mas ganha as estrelas”.

sábado, 16 de julho de 2011

OS AMANTES NÃO CONTAM NADA DE NOVO UNS AOS OUTROS

A alma só acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela já sabe de antemão tudo aquilo por que vai passar. Os amantes não contam nada de novo uns aos outros, e para eles também não existe reconhecimento. De fato, o amante não reconhece no ser que ama nada a não ser que é transportado por ele, de modo indescritível, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que não ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte não significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um véu cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percepção. Também o inanimado, desconhecido como é, mas cheio de confiança, entra no espaço fraterno dos amantes. A natureza e o singular espírito dos amantes olham-se nos olhos, e são as duas direções de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.
E então é impossível reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem relação conosco próprios, pois o ato de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa; mantêm a forma, mas parecem desfazer-se em cinzas por dentro, algo delas se evapora, e o que resta é apenas a sua múmia. É por isso também que não existe verdade para os amantes; seria um beco sem saída, um fim, a morte do pensamento que, enquanto estiver vivo, se assemelha à fímbria arfante de uma chama, onde se abraçam a luz e a escuridão. Como pode uma coisa iluminar onde tudo é luz? Para que a esmola do que é seguro e inequívoco onde tudo é plenitude? E como podemos ainda desejar alguma coisa só para nós, ainda que seja aquilo que amamos, depois da experiência que nos diz que os amantes não se pertencem, mas têm de se dar em oferenda a tudo o que vem ao seu encontro e se oferece aos seus olhares entrelaçados?


Robert Musil, in ‘O Homem sem Qualidades’

quarta-feira, 1 de junho de 2011

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS



Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?

Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.

Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.

por Bertold Brecht

sexta-feira, 6 de maio de 2011

INTEGRIDADE



Observando os fatos diários, reflito sobre como é difícil manter a integridade.


No trabalho que não nos valoriza como profissionais, que nos desafia e nos desestimula, que beneficia os menos comprometidos, e mesmo diante de colegas negligentes que não fazem o que lhes é cabido, é difícil manter a integridade.



Com os amigos que muitas vezes perdem a noção do limite do respeito, da solidariedade, ou da privacidade, quando situações que nos desagradam acontecem, também é difícil manter a integridade.


Na rua,  diante da má educação dos transeuntes que desconhecem a função de uma lixeira ou  no trânsito diante de motoristas desrespeitosos e inconsequentes, é difícil manter a integridade.


Vivendo em um mundo que estimula o consumismo, a superficialidade, o imediatismo e a descartabilidade, é difícil manter a integridade.


Em casa, com a família, com os próximos mais próximos, diante dos desentendimentos diários, da falta de paciência e colaboração, é difícil manter a integridade.


Numa vida de privações em que falta o mínimo para a sobrevivência, em que os filhos choram de forme, é difícil, muito difícil manter a integridade.


Diante de atos brutais de violência gratuita e desnecessária, contra inocentes e pessoas indefesas, é difícil manter a integridade.


Perante os 'nãos' que nos são oferecidos diariamente, dos desejos não realizados, de verdades ditas de forma rude ou diante de uma ofensa, é difícil manter a integridade.


A doença, a debilidade física e mental causam dores no corpo e na alma e, assim, é difícil manter a integridade.


Mas, vivendo uma vida tranquila, com trabalho, com família, com amigos, respeito e conforto, ainda assim é difícil manter a integridade.


A integridade é algo que se perde facilmente se ainda somos seres em evolução. Mas não entenda integridade apenas no sentido de honestidade.


Manter-se íntegro é manter-se inteiro, não ser abalado fortemente por problemas, palavras e circunstâncias ruins. Manter-se íntegro é não perder a fé, a paz, a tranquilidade, o respeito, a honestidade, a pureza, a paciência, a alegria e a benevolência diante de situações desfavoráveis.


É fácil ser honesto quando não há possibilidade de não o ser. É fácil ser fiel se vivemos trancados a sete chaves, é fácil ser bom com aquele que sempre dá o que pedimos e queremos, com aquele que só nos diz doces palavras.

 

Não, não é fácil manter a integridade quando a ofensa fustiga, a fome devora, o desrespeito avança, a indiferença existe. Mas, é preciso.



Ontem mesmo minha mãe me contou uma história que ouviu um palestrante religioso contando em uma de suas pregações: 


Todas as manhãs um senhor idoso descia do ônibus ônibus lotado em frente a uma loja de presentes. Com cuidado escolhia um presente para mulher, pagava, agradecia e atravessava a rua, e entrava na clínica de repouso que ficava na frente da loja. Certo dia, a balconista da loja que sempre o atendia, perguntou-lhe:


- Desculpe-me pela curiosidade, mas o que o  senhor faz todo dia nessa clínica, depois de comprar um presente?

-  Minha esposa está internada aí. Ela tem o mal de Alzheimer.


- Oh, lamento muito. E como ela está?


- Não está muito bem. Está com a memória bastante prejudicada. Já nem me reconhece mais.


- Mesmo assim o senhor vem neste ônibus lotado todos os dias, compra um presente e vai visitá-la?


- Sim.


- Mas, se ela já não o reconhece mais, nem se lembra das coisas, porque o senhor ainda vem todos os dias?


- Ela já não sabe quem eu sou, mas eu sei quem ela é. Ela não se lembra mais das coisas, mas eu jamais me esquecerei dela.

Era disso que eu falava, manter a integridade apesar de todos os motivos para não fazê-lo.

Manter a integridade não é fácil. Mas não é impossível. Pensemos nisso.


Integridade é o amor em equilíbrio com a paz. (Luiz Eduardo)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

SABER RECEBER

Acordei hoje com a certeza de que devemos aprender a receber tudo como um presente. É um exercício útil, necessário, indispensável, fundamental. Mas não é fácil.

Dói muito em todos nós receber ingratidão, inimizade, desrespeito, falta de consideração, agressões, rejeição, ofensas ao invés do contrário, que nós nos imaginamos merecedores. E, na verdade, muitas vezes realmente somos merecedores do bem e de coisas melhores.

Há muito tempo, ouvi uma história que nunca esqueci, embora não tenha usado esse conhecimento da melhor forma, até agora.

Dizem que certa vez um pobre resolveu presentear um rico por ocasião do aniversário desse. Assim, tomou uma cesta, encheu-a de flores e foi ao palácio do rico, com o coração cheio de alegria e amor. Entregou o presente ao empregado que levou-o ao patrão, que por sua vez, do alto de sua soberba, orientou o funcionário a retribuir a cesta cheia de lixo, sujeiras, coisas apodrecidas. Assim fez o empregado: encheu a bandeja de sujeiras e devolveu-a ao pobre, dizendo ser a retribuição do patrão pelo presente. O pobre, cheio de humildade, agradeceu o estranho presente, acrescentando com um sorriso: "A gente dá aquilo que tem de melhor."

Também já li essa história contada de forma inversa, mas a ordem dos fatores não altera o  produto. O que importa é a lição. Precisamos aprender a dar o que nós temos de melhor. E, o mais importante: devemos aprender a recolher com amor e gratidão tudo aquilo que recebemos dos outros, julgando que se trata do melhor que a pessoa tem a nos oferecer no momento. Talvez seja uma variação do 'dar a outra face", de Jesus.

Se somos ou não merecedores da ingratidão ou do desrespeito, não importa. Importa ver tudo como um verdadeiro presente: como o melhor que o outro nos podia dar, como o melhor para o nosso crescimento e aprendizado no momento, como aquilo que, de forma consciente ou inconsciente, precisamos. Muitas vezes, o lixo que recebemos, pode ser transformado no adubo que nos faz crescer. Vamos pensar nisso e exercitar, pois não se trata de um exercício fácil, embora seja simples.

Aceitar o que vem, agradecer, devolver o nosso melhor (já que temos consciência para isso), desejando o bem, sempre. É um exercício que elimina a revolta e traz a paz ao coração. Isso também não quer dizer que devemos ser 'capachos' do outro. Trata-se apenas de respeitar a impossibilidade do outro ser melhor momentaneamente. Acredito que devemos evitar novas situações em que a pessoa possa ser levada a nos presentear infinitamente com as mesmas coisas.

E é disso que estou precisando no momento, então vou ali, exercitar um pouquinho mais.


Recolher pedras de ingratidão por pétalas de carinho é heroísmo de muitos.
Emmanuel



sexta-feira, 29 de abril de 2011

O QUE SUA CÂMERA REGISTRA?

"Não fazemos uma foto apenas com uma câmera;
ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos,
os filmes que vimos, a música que ouvimos,
as pessoas que amamos."
Ansel Adams


A fotografia é uma arte interessante, da qual eu pouco entendo. Mas gosto muito de fotos, gosto de fotos que conseguem captar a essência do momento, que conseguem transmitir, de alguma forma, a beleza - doce ou amarga -, as emoções presentes no instante. Fotos registram momentos, cores, nuances, que muitas vezes se perdem no momento seguinte e são mantidas, ao menos, na imagem.

Quando revemos fotos antigas, somos tomados de emoções: revivemos os momentos, memórias voltam trazendo sentimentos, cheiros, sabores, texturas. Talvez seja por isso que registramos os momentos em fotos. São diversas as nossas reações diante das fotos: algumas vezes, não conseguimos entender como podemos ter usado determinados trajes ou como éramos felizes com aquele infeliz corte de cabelo. Ficamos felizes, outras vezs, porque nos percebemos hoje mais bonitos ou mais elegantes. Algumas vezes, no entanto, nos lamentamos pelos quilinhos que ganhamos, e refletimos sobre as mudanças que os anos trouxeram desde o registro da foto.

Fiquei pensando hoje sobre o nosso mecanismo interior (nada tecnológico, porém muito eficiente) que registra o que as fotos não captam: que momentos registramos e arquivamos na mente, como montamos álbuns mentais com imagens, momentos, sentimentos, que retornam e são revisitados com frequência por nós.

Tantas memórias boas voltam, por exemplo, diante de um objeto qualquer quando o voltamos a ver - um brinquedo de infância, a roupa preferida do passado, um local.   E tantas memórias ruins também voltam, trazendo flashes mentais que se assemelham a fotos que só nós podemos ver, individualmente, álbuns que não podemos compartilhar em essência e integridade.

São profundos os mecanismos da nossa mente. E muito eficientes.  Por isso, compreendo cada vez mais a necessidade de controlar o que nossa 'câmera' mental capta, registra e arquiva. Precisamos nos tornar 'fotógrafos' mais inteligentes e mais amigos de nós mesmos, buscando apagar os álbuns mentais de memórias negativas que retornam trazendo sentimentos que não nos fazem bem. Que essas imagens mentais possam ser rasgadas, descartadas, apagadas. E que as boas memórias possam ser mantidas, como tesouros, em esplêndidos álbuns que possam nos lembrar de coisas belas: como somos amados, abençoados, agraciados pela vida e pelos que nos cercam.


O melhor álbum de fotografia é a nossa memória, nela ficam gravadas fotos reais de momentos bons e ruins de nossa vida. (Márcia Reis)

LENTES E VISÕES

"A visão é o tato do espírito." (Fernando Pessoa)

Eu uso óculos, lentes que me ajudam a ver o mundo de forma mais nítida. Miopia. Com os óculos, vejo melhor as formas, as cores, reconheço pessoas à distância, tenho acesso a coisas que, sem as lentes, me passam despercebidas. Uma pequena ajuda para meus olhos.

Mas, para os olhos do coração, não há lojas especializadas. Não há como examinar de forma tão eficiente nosso coração por uma máquina e determinar qual é o grau de 'miopia' ou outra patologia que nos impeça de ver o mundo de forma melhor.  Nossos humanos corações, quase sempre enxergam mal. Enxergamos como importantes as coisas palpáveis, as coisas adquiríveis no shopping, as coisas mais caras e produzidas em pequena escala.

Esse tipo de 'distúrbio visual' nos impede de ver a beleza que está à nossa volta e de ver aquilo que realmente importa:  que não se compra, o que não está à venda, o que não se pode ser substituído. E também nos impede de ver onde a sujeira está, onde estão nossas falhas, por que continuamos errando, sofrendo e causando sofrimento a outras pessoas.

Não há lentes à venda para fazer esse tipo de correção. Apenas nós podemos encontrá-las e há para tudo que precisarmos: lentes da confiança, da solidariedade, da amizade, do trabalho, da dignidade, da paciência, do compromisso...

Só corrigimos esse tipo de falha na visão pela busca constante da consciência, do amor e do bem maior. Pelas lentes do amor, vemos com perfeição.  Com as lentes da consciência, vemos com nitidez. E, acredite em mim, o mundo é muito mais belo e colorido quando vemos através das lentes certas.


É apenas com o coração  que se pode ver direito; o essencial é invisível aos olhos.
Antoine De Saint Exupery



segunda-feira, 21 de março de 2011

DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN

Você que chegou agora, vem conosco...
Vamos divulgar, não apenas hoje...
Vamos abraçar, não apenas agora...
Vamos fazer a nossa parte!

QUE TAL UM LANCHINHO?

Observando a farrinha diária comandada pelo Luiz Eduardo no Facebook com os lanchinhos, chazinhos e comidinhas em geral, comecei a pensar no poder da comida.

A comida (vamos considerar tudo que nos alimenta, seja líquido ou sólido) tem o poder de alimentar e nutrir nosso corpo físico, tem o poder de mexer com o nosso humor, com os nossos sentidos, tem o poder de nos reunir a outros e também de nos conforta e curar.
Gosto muito de observar os dois últimos. É muito interessante observar que todas  as reuniões familiares ou sociais acontecem motivadas por um jantar, um lanchinho, um coquetel. Não ousamos imaginar uma comemoração por mais simples que seja sem algumas gostosuras para alegrar os presentes. Ninguém convida os amigos para uma visita, sem oferecer-lhes algo especial, preparado com amor.
Mesmo que virtualmente, pela simples visualização de imagens de guloseimas ou fabulosos petiscos, chás fumegantes, nossos sentidos se exaltam, nossa memória entra em ação, evocando sabores e aromas familiares e reconfortantes.
Ninguém resiste às postagens do Eduardo sem se aproximar,  fazer um comentário, sentar-se à mesa e partilhar lanche oferecido, desfrutando das boas companhias e inevitáveis risadas. O poder da comida. Muitos param o que estão fazendo, no meio do dia, para desfrutar daqueles deliciosos momentos. É inegável que a comida reúne e aproxima as pessoas.
Presenteamos com chocolate, cestas de queijos e vinhos. Como lembrança da festa de casamento, distribuímos bem-casados. Recepcionamos os novos vizinhos com um bolo feito com carinho. Oferecemos ovos de páscoa e panetones nos feriados respectivos.  E isso  não é por acaso.
E não é só isso.  A comida tem o poder de confortar e até curar. Não podemos negar que tudo o que fazemos, carrega nossa energia, positiva ou negativa. Quando  cozinhamos ou preparamos um alimento, devemos cuidar para que ele carregue energias de amor.
Quantas vezes, em família, depois de momentos difíceis ou de adversidades, preparamos um jantar gostoso ou um bolo saboroso, como uma forma de consolar, restaurar e revigorar? Quantas vezes o que nos cura é exatamente a canjinha ou aquele chá especial da mamãe ou da vovó?
Ainda que outras pessoas preparem exatamente a mesma receita, o efeito não é o mesmo sobre a nossa saúde ou nosso estado de espírito. Além do amor impregnado nos pratos, há o fator emocional individual, as memórias de carinho, cuidado e conforto que isso nos causa.
Quem sabe agora mesmo não seja o momento de preparar aquela receitinha especial, pode ser a mais simples e rápida, boa o suficiente para fazer um carinho a alguém ou a você mesmo?
Comer não é apenas uma questão de nutrição física, mas também emocional.  Cabe a nós fazer desses momentos diários, situações deliciosas em todos os sentidos.

E então, depois de tanto papo, que tal um lanchinho?

domingo, 20 de março de 2011

COR CORA CORAGEM CORALINA



Cora Coralina.

Durante a maior parte da vida, foi 'apenas' Ana Lins Guimarães Peixoto Bretas, uma dona de casa, mãe de família e doceira de mão cheia. Como se tudo isso fosse pouco, tornou-se poetisa e contista, falando das coisas simples do dia a dia, revelando uma sabedoria ímpar sobre as coisas do mundo.

Imortalizou a pequenina Cidade de Goiás, nos seus versos que carregam o cheiro e o sabor do do interior de Goiás. Apesar de ter vivido por mais de quarenta anos no estado de São Paulo, escolheu registrar as memórias da terra natal e da infância na pequena cidade goiana.
Quando Ana Lins fez cinquenta anos de idade, disser ter passado por uma grande transformação interior, à qual  chamou de "perda do medo". Assim, deixou de ser Ana, passou a ser Cora. Coralina. De muitas cores. E então, dedicou-se com toda a alma à poesia e aos escritos, que jamais abandonara, apesar da vida de mãe e dona de casa.

Cora só publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade e encanta até hoje tantas pessoas com seus versos. Uma história para todos nós, um exemplo de vida, uma história que nos diz que a todo momento podemos fazer novas escolhas, trilhar novos caminhos, começar novos projetos, nos dedicarmos ao que nos dá prazer.

A casinha na qual Cora viveu a infância foi transformada em museu. Para quem já teve a oportunidade de conhecer, a experiência é única. Em cada canto, a riqueza da simplicidade. Em cada objeto, reconhecemos a poetisa dos becos de Goiás, a mulher simples e trabalhadora, a poetisa sensível.

Dá vontade de morar lá, da velha casa da ponte, de tomar um chá com a Cora que fica vendo a vida passar da janela na tarde quente da cidadezinha pacata plantada no meio das serras. Tomar água fresquinha na bica d'água que corre por baixo da casa.  É uma delícia. É lindo. É emocionante.




Para cada um, um pedacinho de Goiás, de Cora, da poesia e da doçura:



HUMILDADE

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”



Quem quiser curtir mais um pouquinho, não deixe de visitar o site abaixo:






terça-feira, 15 de março de 2011

SMILE


Sorrir movimenta muitos músculos faciais. Há quem diga que são mais de 70. Mas o mais importante é que quando sorrimos, enviamos ao cérebro uma mensagem de bem-estar, segurança, conforto. Claro que se for além de um sorriso, melhor ainda. Uma gargalhada libera  endorfinas que levam a uma sensação de bem-estar físico, mental e emocional, relaxamento para todo o corpo.

O sorriso é algo que ninguém se recusa a receber, ainda que não encontre o eco que seria desejável. Mas, geralmente, quando recebemos um sorriso, mesmo que por reflexo devolvemos outro sorriso à pessoa que nos agraciou.

Podemos sorrir pela simples lembrança de um bom momento, podemos sorrir diante de uma situação engraçada, ou até mesmo vexatória (às vezes, é um sorriso amarelo). Podemos sorrir sem motivo algum, podemos até praticar o sorriso. Há terapias que indicam o sorriso como alternativa de relaxamento e até mesmo de cura.

Nada há de mais fácil, gratuito e com funcionamento mais perfeito, além de melhor retorno que o sorriso. Aliás, acredito que se alguém decidisse ganhar a vida vendendo sorrisos verdadeiros e generosos, ficaria rico. O sorriso é algo de que nenhum de nós prescinde; muito pelo contrário, há dias em que precisamos desesperadamente de um sorriso franco e aberto.

Podemos sorrir ou rir como terapia. Melhor ainda será se pudermos sorrir sem motivo, para qualquer um, quando pagamos um cafezinho na padaria ou quando simplesmente paramos o carro diante da faixa de pedestres para que alguém passe. Sorriso gratuito e abundante. Vamos sorrir! Sorrir ainda que o coração esteja doendo ou tenha sido partido, plagiando Chaplin. Simplesmente sorrir!

O sorriso é contagiante. Assim como o mau humor. Também como a grosseria. Tudo depende do que queremos receber, do que queremos distribuir, semear e compartilhar. Sorrir, para posteriormente gargalhar.

Simplesmente sorrir!



No link abaixo há um texto fantástico sobre a meditação do sorriso. É fácil e faz muito bem!

Meditação do Sorriso












domingo, 13 de março de 2011

O MESTRE ZEN E O TERREMOTO


Aconteceu que um mestre Zen foi chamado como convidado. Alguns amigos haviam se reunido e estavam comendo e conversando quando, de repente, houve um terremoto. O prédio em que eles estavam era um prédio de sete andares, e eles estavam no sétimo andar, então a vida estava em perigo.

Todo mundo tentou escapar. O anfitrião, correndo, olhou para ver o que tinha acontecido com o mestre. Ele estava ali sem sequer uma ruga de preocupação no rosto. Com os olhos fechados, ele estava sentado em sua cadeira da mesma maneira que estava sentado antes.

O anfitrião sentiu-se um pouco culpado, sentiu-se um pouco covarde; não fica bem que o hóspede fique sentado e o anfitrião fuja. Os outros, os outros vinte hóspedes, já tinham descido as escadas, mas ele parou, embora estivesse tremendo de medo, e se sentou ao lado do mestre.

O terremoto chegou e passou, o mestre abriu os olhos e retomou a palestra que, por causa do terremoto, havia interrompido. Ele continuou novamente, exatamente na mesma frase - como se o terremoto não tivesse acontecido.

O anfitrião estava agora sem vontade de ouvir, não estava com disposição de entender porque todo o seu ser estava muito perturbado e ele estava com muito medo. Mesmo que o terremoto já tivesse ido embora, o medo ainda estava lá.

Ele disse: "Agora não diga nada, porque não serei capaz de compreender, não sou mais o mesmo. O terremoto me perturbou muito. Mas há uma pergunta que eu gostaria de fazer. Todos os outros hóspedes haviam escapado, eu também estava na escada, já quase correndo, quando de repente me lembrei de você. Vendo você aqui sentado com os olhos fechados, sentado tão tranquilo, tão imperturbável, me senti um pouco covarde - sou o anfitrião, eu não deveria correr. Então voltei e estou aqui sentado ao seu lado. Gostaria de fazer uma pergunta. Nós todos tentamos fugir. O que aconteceu a você? O que você me diz sobre o terremoto?"

O mestre disse: "Eu também fugi, mas você fugiu para fora, eu fugi para dentro. Sua fuga é inútil porque para onde quer que você esteja indo lá também há um terremoto, então é sem sentido, não faz sentido. Você pode alcançar o sexto andar ou quinto ou o quarto, mas lá também há um terremoto. Eu fugi para um ponto dentro de mim onde nenhum terremoto jamais chega, não pode chegar. Entrei em meu centro.

Isso é o que Lao Tzu diz: "Agarre-se firmemente ao princípio da Quietude". Se você é passivo, aos poucos vai se tornar consciente do centro dentro de você. Você o tem carregado o tempo todo, ele sempre esteve aí, só que você não sabe, não está alerta.

Uma vez que você fique alerta sobre ele, a vida em sua totalidade se torna diferente. Você pode permanecer no mundo e fora dele porque você está sempre em contato com o seu centro. Você pode passar por um terremoto e permanecer imperturbável porque nada toca você.

No Zen eles têm um ditado que diz que um mestre Zen que tenha alcançado o seu centro interior pode passar por um riacho, mas a água nunca toca seus pés . Isso é belo. Não quer dizer que a água nunca toca seus pés - a água vai tocá-los -, refere-se a algo sobre o mundo interior, o profundo interior. Nada o toca, tudo permanece fora, na periferia, e o centro permanece intocado, puro, inocente, virgem.
Osho, em "Living Tao"
Imagem por h.koppdelaney
BLOG Palavras de Osho 

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO

O QUE É COERÊNCIA?

No conceito da palavra coerência podemos de cara destacar que coerência é ausência de contradição.

Atitudes coerentes são atitudes que demonstram sintonia, equilíbrio, do que se faz com aquilo que se  fala.

Para ter coerência é preciso basicamente buscar se conhecer, é preciso estar realmente determinado na busca do autoconhecimento, da verdade interior, é preciso comprometimento.
 
(Luiz Eduardo)
 

sábado, 12 de março de 2011

TRAGÉDIAS COLETIVAS - Um convite à fraternidade




Quando uma tragédia como o terremoto e o devastador tsunami no Japão acontece, todo o mundo  é afetado.

Os geólogos falam que um terremoto, altera o eixo da Terra. Mas não é só isso.  

Individualmente o que isso representa? Até que ponto e a que nível nossas ações individuais interferem no coletivo e vice-versa.

Deus, a espiritualidade, a providência divina permite as tragédias coletivas por razões que, infelizmente, nem sempre nossa compreensão alcança, mas são necessárias ao nosso crescimento. Cada pensamento e cada sentimento nosso é um tijolinho que colocamos no alicerce da vida, que pode ser construtivo ou não.

A responsabilidade das coisas que acontecem não é de Deus, seria muito cômodo, dar essa atribuição a Ele... A responsabilidade é nossa, Ele só permite para que através das experiências possamos aprender e evoluir. Há duas formas de aprendizado e crescimento: pelo amor ou pela dor. Aí entra a permissão de Deus.

Daí a necessidade de buscarmos as coisas edificantes: o bem, a qualidade de vida, a saúde, o respeito ao próximo, os cuidados com o planeta; esses são   assuntos que estão carecendo de reflexão.

Algumas pessoas acreditam que as tragédias coletivas são, na verdade, resgates coletivos e que a destruição pode ser um primeiro passo para a transformação e evolução necessárias ao nosso melhoramento.

Muitas vezes o que chamamos de fim e destruição é fundamental para o renascimento e a regeneração. E os problemas, as tragédias, as dores, as destruição são causadas por nós mesmos, conscientemente ou não. E como consequência, trazem mudança, transformação.

Tudo isso, neste momento,  evocam um outro momento em que a destruição causou dor ao Japão, mas trouxe mudanças positivas. Como tão poeticamente a música A Paz, do Gilberto Gil ensina: “Uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz.”

Além disso, grandes destruições alavancam o progresso de várias formas. Ainda há pouco, assistia a um noticiário na tv e o repórter afirmou: "Depois de grandes tragédias como um tsunami, o país vivencia uma onda de progresso e crescimento. Há muita participação e injeção de recursos."

Com certeza, por nossa escolha preferiríamos caminhar lentamente na direção do progresso e da evolução, a passar por tragédias como essa. E talvez seja justamente por isso que a Divindade nos dá um 'empurrãozinho', porque somos um tanto acomodados, principalmente em relação ao progresso moral. Li essa semana em algum lugar a piadinha "Adão e Eva foram expulsos do paraíso por desobediência, e por preguiça ambos não conseguiram voltar até hoje." Apesar da clara intenção cômica da declaração, talvez isso encerre uma verdade.

As tragédias coletivas despertam em nós sentimentos diversos que vão para muito além da preocupação material. Esses eventos acordam em nós o nosso senso de humanidade, fraternidade e solidariedade. Além disso, também destrói as barreiras e limites de território, cor, raça e religião, o que  reforça em nós a consciência de que somos irmãos, partes do Todo.

Os motivos ou as causas das tragédias não importam realmente. O que realmente conta é como isso nos afeta e como isso nos ensina; em que nos tornamos melhores e de que forma nos unimos para minimizar a dor dos nossos irmãos, dor que também é nossa. Não importa o quanto a Terra se deslocou do seu eixo, mas o quanto nós nos deslocamos do nosso eixo de conforto e individualismo, somos responsáveis por tudo aquilo que acontece... no individual e  no coletivo também. Acordemos!

(Colaboração de Luiz Eduardo Blog)

Por isso, convidamos a todos para promovermos hoje e amanhã, às 18 horas (horário de Brasília) uma prece em favor dos nossos irmãos que estão vivenciando essa tragédia e pelo despertar da humanidade.

sexta-feira, 11 de março de 2011

ASSUMINDO AS ESCOLHAS



A questão das escolhas já é uma questão batida nas discussões sobre autoconhecimento.  Sabe-se que escolhemos todo o tempo. Agora mesmo faço uma escolha ao expressar minhas opiniões. E quem, por ventura ler esse texto, também estará fazendo uma escolha.

Escolhemos uma profissão, escolhemos amizades, escolhemos o que comprar, o que comer. Mas a questão que me faz refletir hoje é outra. Fazer escolha é algo natural, como respirar.

A questão que realmente importa é estar consciente da escolha feita, e, acima de tudo, assumi-la. A coisa mais corriqueira no mundo é uma escolha vir seguida de um subterfúgio:

- Ninguém me avisou...
- Eu estava doente..
- Eu fui uma vítima da situação...
- Eu estava num momento difícil...
- Eu não vi o que fazia...
- Não foi por mal...

E por aí vai. Não acho que as pessoas devam se culpar pelas escolhas que não foram felizes. Só acredito que é preciso assumir, 'para a sorte abrir'; assumir que julgou  mal, que errou, que foi infeliz na escolha, que foi egoísta, insensato, inconsequente. Não assumir é passar para a frente algo que deveria ser refletido; não assumir é culpar os pais, a criação, a vida difícil, a dificuldade financeira, a vida ingrata, Deus.
Assumir liberta das culpas, porque cria uma sensação de reparação. Quando cometemos um erro, devemos tentar minimizá-lo, repará-lo. De forma honesta, adulta e sincera, assumir uma escolha errada é a reparação do erro ou parte dela.

Os subterfúgios são muletas. Quem neles se apoia não cresce, não evolui, não se reabilita. Os subterfúgios alimentam situações duradouras de infelicidade e dor. Mas é preciso coragem para jogar fora os subterfúgios, porque eles são confortáveis, nos poupam de dores e nos protegem dos julgamentos. Mas é só.

Pessoas conscientes e responsáveis assumem seus méritos, tanto quanto assumem suas falhas. Crescem com a dor, com as escolhas mal sucedidas, não temem enfrentar de peito aberto as consequências. E assim crescem, evoluem, brilham e voam alto.

quinta-feira, 10 de março de 2011

SEJA OSTRA



Eu adoro errar e aprender, eu adoro sofrer e crescer. Ruim é quando a gente não sabe fazer essa alquimia.

Podemos aprender sem errar, aprender pelo estudo, pela observação. Mas nem sempre esse aprendizado é realmente concreto. Muitas vezes, aprende-se a teoria, mas na prática não se sabe utilizar o que foi aprendido.

O erro ensina com a prática, de forma que procuraremos evitar errar novamente no futuro. Quando o sofrimento nos traz crescimento, a dor transforma-se em alegria ou beleza. É como a história da ostra que, ferida, produz a pérola. A beleza não existiria caso o ferimento não existisse.

O sofrimento, qualquer que seja, produz em nós um movimento que nos leva a buscar a solução, a cura. A falta de algo nos causa sofrimento, e esse sofrimento nos ensina algo que precisamos aprender, a fim de conquistar aquilo que nos falta – o alívio, o conforto, a paz.

Mas, nem sempre, agimos como ostras. Nem sempre sabemos agir de forma construtiva e consciente. Esse é um exercício que deve ser feito diariamente e regularmente. Afinal, estamos em eterno processo de evolução.

Seja ostra. Faça a alquimia.